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terça-feira, 1 de junho de 2010

Surrupiando um momento

Em meio a milhares de caixas de mudança, um monte de pó e várias listas de tarefas é difícil conseguir desacelerar o bastante para compartilhar um momento gostoso de leitura.  Por isso nesses últimos dias cada qual aqui em casa fez a sua, sozinho, deitado na cama antes de dormir.  Apesar de não compartilharmos leituras temos pelo menos conversado sobre leituras o que também é uma delícia se fazer.  E por mais que a gente se conheça e conheça os gostos um do outro, sempre aparece alguma novidade, alguma surpresa nessas conversas.

Outro dia o Pedro e eu tivemos um papo super bacana sobre novelas gráficas.  Eu estava perguntando qual era a opinião dele a respeito de um projeto que eu estava escrevendo.  O projeto tinha a ver com a formação de leitores e eu queria saber o que o Pedro achava das iniciativas que eu estava propondo para "provocar" jovens não-leitores.

Eu dizia que era uma pena a maneira como alguns professores dão aula de literatura e tornam uma coisa tão fascinante em tarefa maçante e tediosa.  Não, não quero generalizar, mas isso ainda acontece SIM.  E se os adolescentes não desenvolveram antes o interesse pela leitura, não é fazendo questionários intermináveis ou análises incansáveis sobre um livro que alguém vai conseguir despertar esse interesse.  Acredito piamente que temos que aproximar livros e leitores.  Já não me lembro onde eu li isso, mas "existe um livro para cada leitor."  Quanto mais alternativas oferecermos, mais chance haverá do leitor encontrar-se com o "seu" livro.


Perguntei para o Pedro o que ele achava de participar de um grupo de leitura de novelas gráficas.  Poucos dias antes dessa nossa conversa eu tinha lido dois livros maravilhosos que o Pedro também gostou bastante.  Duas novelas gráficas.  A primeira é uma linda autobiografia chamada Retalhos do cartunista Craig Thompson.  A segunda me lembrou o excelente Maus, de Art Spiegelman, pelo tema do holocausto.  Chama-se A Busca e foi publicada pela Cia. das Letras.  Os autores são Eric Heuvel, Ruud van der Rol e Lies Schippers.  Os dois títulos são realmente muito bons - eu adoraria trabalhar com qualquer um deles dentro da sala de aula.  O Pedro achou a ideia interessante e disse que ele toparia participar de um grupo de leitura como o que eu estava propondo.  Mas eu percebi que enquanto falávamos sobre isso a cabeça dele já ia pensando noutras coisas...


Gostei muito mesmo dessas duas leituras e comecei a trazer para a conversa várias outras que já curtimos juntos (ou não) aqui por casa.  Lembrei do maravilhoso Persépolis da Marjanne Satrapi - uma aula sobre o Irã - que foi lido num tapa, quase que no mesmo dia, pelo Pedro, pelo Gabriel, meu sobrinho, e por mim.  Persépolis é daqueles livros ilargáveis, não dá para parar de ler antes de terminar.  Lembrei também do D. João Carioca, da historiadora Lilia Moritz Schwarcz e do cartunista Spacca, que uma professora do Pedro recomendou há uns dois anos e que todos nós em casa adoramos.  Fiquei pensando o quanto essas leituras foram ricas o quanto eu gostei delas.  Acho que às vezes a gente esquece de explorar linguagens diferentes e estilos diferentes de literatura.  É uma pena porque quem acaba saindo perdendo é a gente mesmo.

Bom, mas o mais gostoso da história foi a aula que o Pedro me deu sobre novelas gráficas.  Eu tinha mesmo percebido que ele estava falando comigo sobre o grupo de leitura, mas pensando em outra coisa bem diferente.  Assim que eu dei uma brecha ele começou a me dar explicações...  Fico sempre maravilhada com os saberes do meu filho.  Eu sei que ele sabe muito sobre muitas coisas, mas é sempre uma surpresa quando ele desata a falar com tanto conhecimento de causa e tanta propriedade.  Ele ficou um tempão me contando sobre os quadrinhos favoritos dele: V de Vingança e Neuromancer.  Nem acho que esses dois tem muito a ver comigo, mas foi ótimo "trocar de lugar" com o Pedro.  Geralmente sou eu que fico explicando as coisas prá ele na hora do jantar (talvez por pura metidez e tagarelice).  Mas ultimamente as trocas tem sido mais regulares e essa conversa, especificamente, foi realmente um momento de aprendizagem para mim.    

Meu filho está mesmo virando gente grande.  Nem vou começar a falar sobre isso porque afinal de contas não é disso que esse blog trata.  Mas é delicioso perceber que os livros nos aproximam.  Não que nós não tenhamos os nossos momentos de conflito - ele tem quinze anos e eu sou a mãe dele...  Mas ainda bem que temos esses gostos parecidos que servem para reconciliar e estreitar os laços.  Quer coisa melhor?

Mais um livro lindo-maravilhoso que vale à pena ser lido em qualquer idade:  A Invenção de Hugo Cabret, do Brian Selznick.  Imperdível!  E ainda não li, mas descobri outro dia que existe uma versão em quadrinhos para Em Busca do Tempo Perdido.  Proust em quadrinhos é demais!  Mais um para a minha lista...

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A avó que curte mangá

Ontem à noite estava conversando com uma grande, enorme!, amiga que está morando no Japão e ela me contou uma coisa linda que tenho que escrever aqui.  A mãe da Paula é filha de japoneses imigrantes, nasceu no Brasil e quando era jovem falava bem, lia e escrevia o japonês.  Mas com o passar dos anos perdeu o contato frequente com a língua nativa dos pais.  Há dois meses a Paula se mudou para Osaka e resolveu procurar para a sobrinha, fã número 1 de mangás, algumas revistas em japonês.  Tudo para incentivar a sobrinha querida a continuar seus estudos de japonês.  O pacote com vários mangás chegou em São Paulo na semana passada e a sobrinha pirou!  Ficou tão feliz com o presente que carregou os mangás prá casa da avó, pro almoço de domingo.  A avó se comoveu com o interesse da neta pelas revistas.  Sentou-se ao lado dela para que pudessem ler, juntas, os mangás em japonês.

Mais tarde essa avó maravilhosa contou para a filha, minha amiga, que ficou muito feliz de ter tido aquele momento com a neta.  Não deve ser tarefa fácil ser avó de uma adolescente - acho que fica difícil achar interesses em comum quando a garotada está com 14, 15 anos.  Quem diria que um mangá proporcionaria esse tipo de aproximação entre avó e neta?  A mãe da Paula disse que ficou feliz também com o fato dela ter conseguido se lembrar tão bem da língua dos pais.  Foi mesmo um momento de leitura mágico que juntou pelo menos quatro gerações dessa família: os bisavós japoneses, a avó leitora, a tia que mandou os mangás lá do outro lado do planeta e a bis/neta-sobrinha.

Mas a história não pára por aí.  Naquela tarde de domingo tinha um jogão no Morumbi e a família toda da Paula, alucinada pelo São Paulo que é, foi prestigiar o time no estádio.  A sobrinha não teve dúvida - levou o mangá junto.  Pro jogo de futebol no Morumbi.  Só quem conhece essa família e sabe o nível de 'comprometimento' deles com o futebol entende o que isso significou...

Em tempo: esqueci de perguntar para a minha amiga o que a mãe dela achou do mangá.  Da próxima.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

HQs

O calor está tremendo. O termômetro diz 34 graus, mas eu não acredito. Deve estar no mínimo 54. Faz duas horas que estou prostrada na cama, lendo e tentando não me mexer muito. Fui agora mesmo olhar o que as crianças estavam fazendo porque a casa estava quieta demais. Achei que estavam os dois dormindo, mas não! Surpresa! Está cada qual em seu quarto, janelas abertas, refestelados embaixo do ventilador de teto lendo... A Turma da Mônica! Cada um tem uma pilha de revistinhas a seu lado e parece que faz duas horas que eles estão fazendo isso. E viva o calor.

Há alguns anos li um livro chamado The Power of Reading de um pesquisador americano, o Stephen Krashen. Nesse livro, que eu acho que não está traduzido, ele fala sobre a importancia do que ele chama de Free Voluntary Reading - Leitura Livre Espontânea (na falta de tradução melhor). Eu não concordo com tudo o que ele diz no livro, mas um capítulo me chamou muito a atenção. O capítulo sobre a leitura de revistas em quadrinhos. Em seu livro, Krashen sugere que pesquisas feitas nos Estados Unidos sobre a leitura de revistas em quadrinhos demonstram que essa leitura "leve" (light reading, nas palavras do autor) serve de condutor para leituras mais densas e sofisticadas.


O Pedro, que hoje tem 14 anos e é um grande leitor, aprendeu a ler com quadrinhos. Ele frequentava uma escola internacional e estava aprendendo a ler em inglês, mas o que realmente fisgou sua atenção foi a Turma da Mônica. Quando ele descobriu que o que estava escrito nos balõezinhos complementava os desenhos e "melhorava" as histórias, passou a devorar gibis. No princípio levava um tempo para que ele conseguisse juntar todas as letras e sons para entender palavras e sentenças. Mas como o interesse era grande, ele persistiu e aos poucos foi se tornando um leitor mais fluente. Lembro até hoje das gargalhadas dele lendo gibi no sofá. Hoje o Pedro devora livros, livros e mais livros, mas nunca abandonou o hábito de ler quadrinhos. Da Turma da Mônica passou para os quadrinhos da Disney, sabe tudo sobre Carl Banks e outros famosos do ramo e hoje coleciona vários quadrinhos da Marvel. Isso aí é que é paixão por leitura.