sexta-feira, 18 de março de 2011

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CILELIJ - Santiago do Chile - 2010

Ontem fez um ano que um terremoto de força 8.8 na escala Richter se abateu sobre o Chile.  Eu estava lá, mas não consigo colocar em palavras tudo o que vivi e senti.  No ano passado, uma amiga mexicana propôs que eu escrevesse uma crônica sobre o Congresso de Literatura Infantil e Juvenil que me levou ao Chile.  Escrevi, guardei e nunca mais olhei para ela.  Até ontem.  Hoje eu gostaria de compartilhar minha experiência aqui.

Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos ~ Pablo Neruda

Mal conseguia conter meu entusiasmo quando subi o primeiro degrau da entrada do Museu Nacional de Belas Artes de Santiago do Chile. Ali, naquela noite de 24 de fevereiro, se realizaria o coquetel de inauguração do Primeiro Congresso Iberoamericano de Lingua e Literatura Infanto-Juvenil - CILELIJ. Pelo hall de entrada do Museu podia-se ouvir o burburinho das conversas animadas. Um traço de expectativa pelo que ainda ia acontecer marcava todas essas conversas. O ar estava cheio de animação e entusiasmo. E sorrisos estampados nos rostos das pessoas espalhadas pelo salão – sorrisos de boas vindas das recepcionistas à porta que nos convidavam a entrar, sorrisos de colegas que se encontravam para um evento fora do local de trabalho, sorrisos de pessoas que acabavam de se conhecer.

Me sentia absolutamente extasiada com a possibilidade de ver de perto autores e estudiosos que eu só conhecia dos livros. Era um sentimento meio “tiete”, mas ali estariam “ao vivo” pessoas que me divertiram, ensinaram, comoveram e acompanharam por toda a infância, juventude e, como não?, também na idade adulta. Nomes como Ângela Lago, Lygia Bojunga Nunes e Ana Maria Machado saltaram das capas dos livros e viraram pessoas como eu, de carne e osso. E ali me contavam novas histórias - histórias de cidadania, histórias da importância da leitura na vida das pessoas e sobretudo histórias de paixão pela literatura.

A cada sessão me surpreendia com nova enxurrada de informação e ideias. Ao mesmo tempo que aprendia, me dava conta de que tudo o que eu ouvia vinha simplesmente confirmar minhas convicções e minha visão de professora, de como a literatura infantil deve ser usada em sala de aula... e mais além. A leitura tem poder transformador e ainda que os livros permaneçam em seus lugares, nas estantes e prateleiras de bibliotecas e salas, as histórias que trazem consigo ultrapassam barreiras de paredes e muros. As histórias se tornam parte de cada um que entra em contato com elas – basta haver um encontro.

Foram vários os encontros que tive com pessoas de talento enorme que escolheram como carreira o comprometimento de levar a literatura a todos os cantinhos dessa nossa América tão Latina. São milhares as iniciativas de promover a leitura por nossos países, iniciativas públicas ou privadas, que são levadas adiante por braços fortes e corações valentes. Ouvir falar sobre Lectura Viva e Fundalectura na Colombia, sobre o Plano Nacional do Livro e da Leitura no Brasil e sobre as ações do Consejo Puebla de Lectura no México me fez perceber que temos muito o que aprender uns com os outros. Temos caras idênticas, apesar de sermos intrinsicamente diferentes. Boas ideias abundam. Me pergunto se não é possível fazê-las chegar a outros lugares além de seus berços de origem.

A programação do congresso era intensa e não havia espaço para folgas. Assim que, entre ponencias e falas, entre conversas na fila do banheiro ou tomando um café, fui sendo apresentada à literatura infanto-juvenil iberoamericana. Minha ignorância (no sentido mais literal da palavra: falta de saber, ausência de conhecimento) foi diminuindo pouco à pouco, sessão à sessão. Ao cabo de dois dias já me perguntava como era possível que nunca tivesse lido Papelucho de Marcela Paz. Panoramas e correntes se descortinaram perante meus olhos. O cenário do mundo da LIJ se transformava em conhecimento até que na madrugada do meu quarto dia em Santiago a surpresa da natureza foi maior que tudo o que já tinha ouvido até então.

Acordei com um rugido alto e insistente, um barulho de trovão de origem equivocada. Como podia ser que aquele estrondo viesse do chão? Quando a palavra terremoto se formou em minha cabeça, saltei da cama para fora do apartamento. Quando dei por mim já estava de pé no meio da rua, descalço e de pijama. Só. Tudo se movia, a rua, a calçada, os prédios à minha frente, os prédios às minhas costas. Eu sozinha, no meio da rua, observando como o mundo todo parecia feito de borracha, gelatina molenga que treme quando a gente apoia a tigela nalgum lugar. Não sabia se era alucinação, se estava ficando louca. Só o barulho me acompanhava, a trovoada incessante, os alarmes disparados dos carros e um cabo de eletricidade que estourou no fim da rua.

Às 10:00 da manhã, me achando refeita do susto, fui em companhia de minhas colegas de congresso procurar saber o que estava acontecendo com os outros participantes. Estava certa de me deparar com um cartaz de ‘cancelado’ na porta do museu onde se realizavam as palestras. Me deparei foi com as escadarias do museu cobertas de entulho, o edifício isolado por uma fita preta e amarela. Lembrei-me da foto que o grupo tinha tirado na véspera, naquelas mesmas escadarias. Minha total inexperiência telúrica me deixou totalmente sem chão. Não conseguia alcançar a totalidade do que estava acontecendo.

Não havia placa de cancelado diante do museu. Havia sim membros da organização que estavam ali desde cedo, para recepcionar àqueles que não estavam hospedados nos hoteis onde estava a maioria dos participantes. Nos receberam com vozes calmas e olhares suaves. “Sim, sim, foi triste, sim, sim, muito assustador, não, não, nada de grave conosco, felizmente estamos bem. Mas olhem bem, estamos reunindo a todos no hotel São Francisco. Ali receberão mais informações. Aqui está a van que vai levá-los até lá.” Seguimos atordoados até o hotel, onde um grupo grande já se sentava para ouvir o que os organizadores tinham a dizer.

Foi lamentando perdas, muitas perdas, que se interrompeu o CILELIJ. Tentamos seguir trocando ideias, ouvindo falas apressadas e leituras engasgadas daqueles que deveriam se apresentar naquele sábado. Queríamos estar juntos, mas tinhamos o coração embotado e as lágrimas insistiam em escapulir. O congresso foi encerrado assim, com muito pesar.

Muitos de nós ainda ficaram vários dias no Chile, esperando que se reestabelecesse o funcionamento do aeroporto. Só muitos dias depois de voltar para casa é que fui olhar o programa incompleto do congresso. Me dei conta de que depois de três dias em que se pintaram todas as telas do passado e do presente da LIJ, ficou nos faltando falar sobre o futuro. Justo o futuro que nos promete tantas mudanças e inovações. Mas acho que estamos no caminho certo enquanto continuarmos fazendo esforços para ouvir-nos uns aos outros, conhecer-nos e assim seguir incrementando as iniciativas de fomento à leitura. Nisso o CILELIJ primou. Espero ansiosamente pela próxima edição.

Essa crônica terminou no parágrafo aí de cima, com o encerramento abrupto do CILELIJ. Este parágrafo aqui serve apenas para aproveitar o restinho da página com um assunto absolutamente pessoal. O CILELIJ significou muito mais que uma experiência profissional. É certo que a tragédia que sentimos, vivemos e assistimos ficou para sempre gravada na memória. Mas dizem por aí que é nos momentos de maior tensão que o ser humano se despoja de todas as máscaras e mostra realmente ao que veio. O que ficará para sempre guardado comigo é o valor e a coragem dos Chilenos, que apesar de estarem lidando com tamanha tragédia, ainda encontravam dentro de si palavras de consolo e tranquilização para nós, estrangeiros. Fomos ainda mais acolhidos e bem-cuidados depois do terremoto. Não há como esquecer, jamais, o profissionalismo de todos os envolvidos com a organização do congresso, a presença segura e constante de Sérgio T. (que certamente descobriu o segredo da clonagem perfeita porque estava sempre em todas as partes) e a amabilidade infinita de todas as “mãos invisíveis”. Dizer obrigada não é o bastante.

Vi também que em momentos de crise os laços se estreitam mais rápido e mais forte. Depois de encerrado o congresso, tive a oportunidade de aprofundar o contato com pessoas que conheci durante os eventos e de conhecer outras pessoas, que provavelmente não teria conhecido se a situação fosse distinta. De meus queridos novos amigos de Guatemala, Peru, Paraguai, Chile e dos muito mais que queridos amigos Mexicanos, fica a recordação de momentos muito especiais e a esperança de uma amizade para sempre.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma leitura puxa a outra

Não houve leitura em familia nas férias.  É isso aí.  Tanta preparação e nada.  Nadica mesmo.  Aliás, não.  Seria melhor dizer que não houve leitura em voz alta nas férias.  Não li para a Luísa nem uma linha do livro que escolhemos para colocar na mala.  Para o Pedro então...  O máximo que li para ele nos últimos tempos foi alguma notícia de jornal, mas de literatura mesmo - necas.

Isso não quer dizer que a literatura não nos encontrou nesse verão.  Ficou cada um na sua... mas pelo menos a leitura aconteceu.  O Pedro descobriu os livros do Robert Jordan e resolveu mergulhar de cabeça na série d'A Roda do Tempo.  Ele chegou a me dizer que esses livros são melhores que os do Tolkien (!!!) mas resolvi dar um desconto porque ele tem só quinze anos.  Também comprei para ele a trilogia do Livro do Tempo, do francês Guillaume Prevost.  E de Natal ele ganhou vários da série Duna, do Frank Herbert.  O Jeff e a Adri deram o primeiro da série para ele em julho e acertaram em cheio.  Ele amou e quis mais.  (Dá para perceber que o Pedro adora fantasia/ficção científica, não é?) 

Agora mesmo, enquanto escrevo, ele está deitado no sofá, lendo.  Acho que os livros que vem em série tem grande apelo para os jovens da idade do Pedro.  Talvez seja porque eles proporcionam ao leitor o reencontro com personagens queridas, reestabelecem relações construídas anteriormente... mas isso é papo para outra postagem.

A Luísa, por sua vez, andou conhecendo autores novos.  Adorou o livro Era Mais Uma Vez Outra Vez, da Gláucia Lewicki com ilustrações do Cárcamo.  E eu também adorei!  História divertida e gostosa, faz o leitor se perguntar o tempo todo onde é que a coisa vai dar.  Depois a Lulu leu A Casa Pintada, da autora espanhola Montserrat del Amo.  Agora ela está mergulhada no Agito de Pilar no Egito, da Flávia Lins e Silva, que eu peguei para ela na biblioteca.

Essa menina gosta muito de tudo o que tem a ver com o Egito Antigo.  Já leu sobre múmias faraós e hieróglifos - se interessa de verdade pelo assunto.  No ano passado ela já tinha lido outro livro da Pilar - As Peripécias de Pilar na Grécia.  Quando viu o livro da Pilar no Egito quase alucinou.

Bom e foi preciso tudo isso para explicar minha ideia de que uma leitura puxa a outra.  Já aconteceu comigo mil vezes e vai continuar acontecendo com todos que gostam de ler.  Leitores muitas vezes escolhem suas próximas leituras por causa de um tema que lhes interessa, de um autor que lhes agrada.  E quando estão bem seguros em relação às suas preferências, topam arriscar mais ou menos qualquer novidade que lhes chame a atenção.

Fiquei um pouco frustrada por não ter tido nenhum momento de leitura compartilhado com meus filhos.  Achei que durante as férias pudéssemos recuperar aquela cumplicidade de ler juntos que fomos perdendo ao longo do ano letivo.  Mas agora estou mais conformada porque percebo que, na verdade, meus filhos já são leitores independentes, com o hábito da leitura formado e solidificado.  Talvez meu papel esteja mudando mesmo.  Talvez minha "tarefa", a partir de agora, seja só a de conversar bastante sobre o que eles estão lendo e proporcionar o máximo de "material de leitura" (interessante, variado e de qualidade) possível.  Talvez.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Viajar com livros

Na mala veio de tudo; do maiô ao jogo de Uno, não faltou nada.  Não vamos ficar tanto tempo fora portanto a tarefa de separar o que deveria ser colocado na mala até que foi fácil.  O mais bacana de tudo foi quando a Luísa disse, "E não vamos nos esquecer dos livros!"  Separei o Como Falar Dragonês da Cressida Cowell porque estamos curtindo muito essa série engraçadíssima.  Só que não foi o bastante.  Dali a pouco olhei para a pilha de coisas em cima da cama e vi outro livro.

-Lulu, não precisa de outro livro.  Vamos ficar só quinze dias fora.  Um só já vai durar a viagem inteira.
-Mãe, o Como Falar Dragonês é para nós lermos juntas.  O Frindle é para eu ler sozinha, oras.

Como é que eu não pensei nisso?  Tem hora para tudo.  Para ler junto e para ler sozinho.  É óbvio. 

Fiquei inchada de orgulho.  Já faz tempo que o Pedro carrega 5kg a mais de bagagem por causa dos livros cada vez que sai de viagem, mas ainda não tinha visto isso acontecer com a Luísa.  Adorei ver os dois filhotes se preparando para viajar por aí - voando solo para terem suas próprias aventuras.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Acredite na mágica

"And above all, watch with glittering eyes the whole world around you because the greatest secrets are always hidden in the most unlikely places. Those who don't believe in magic will never find it."

 
— Roald Dahl

"Olhe o mundo a seu redor com olhos brilhantes porque os maiores segredos estão sempre escondidos nos lugares menos prováveis. Aqueles que não acreditam em mágica nunca vão encontrá-la".

sábado, 6 de novembro de 2010

Dicas de Germán Machado

Achei num passeio pelos meus blogs favoritos e não resisti.  Resolvi copiar aqui as treze instruções que o autor uruguaio Germán Machado dá para se viver a leitura na companhia de nossas crianças. 

"Desde mi experiencia de lector y escritor; conciente de que uno escribe a medida que aprende a leer; para no terminar esta locución con preguntas; y a riesgo de resultar pedante: propongo ahora trece instrucciones para ayudar a leer al niño que, así lo pienso, pueden ordenar mejor mis ideas sobre el tema. Son estas:
1. No lea al niño que usted dejó atrás: lea con el niño que está junto a usted. Tampoco se adelante al niño en su lectura: conózcale su tranco, acompáñelo y déjelo leer en soledad cuando él así lo quiera.
2. Lea como si usted nunca fuera a dejar de ser un niño, pero sabiendo que ya no lo es. Lea en la actualidad, pero sabiendo que en el futuro estará el pasado y en el pasado también estuvo el porvenir.
3. Lea lo que el niño le pide, pero también lo que el niño le da. Disfrute de ambas cosas, y que ambos disfruten. Y si el niño quiere leerle algo a usted, déjelo hacer, incluso cuando el niño todavía no sabe leer.
4. Lea en el espacio y en el tiempo adecuados. No se desubique. En el caso en que lea con el niño por las noches: nunca se duerma usted antes que él.
5. Al seleccionar la lectura, piense en el niño con el que va a leer, pero no haga caso a las categorías, ni a las clases, ni a las edades, ni a los tamaños. El único que puede ser caprichoso en cuanto a elegir la lectura es el niño, no usted.
6. Lea todo lo que venga, pero también todo lo que se va. Piense que toda lectura es una encrucijada.
7. Lea con el niño sólo cuando está seguro de dos cosas: que no tiene ninguna otra tarea más importante para hacer y que leer con él no representa una tarea para usted. Si no está seguro de eso, igual es mejor que lea con el niño a que no lo haga.
8. Lea con el niño como si fuera la última vez que va a hacerlo, y también como si fuera la primera.
9. Lea con el niño como si usted fuese uno de esos bambúes —conocidos como Cañas de la India— que florece y produce semillas una vez cada 120 años para luego morir. Piense que esos bambúes florecen todos juntos y a la vez, y que alguna de las semillas que lanzan logrará evitar a los depredadores para poder reproducir la especie. Si esto no lo convence, piense que esos bambúes igual se propagan de forma constante, produciendo nuevos brotes a partir de rizomas subterráneos.
10. Lea con el niño como si estuviese ayudando a un ciego a cruzar la calle. La fraternidad, o el amor filial, tienen algo que ver en eso, aunque luego de cruzar la calle, usted seguirá su camino personal y el niño (como el ciego) avanzará por el enigma de sus recónditas distancias.
11. Si cuando está leyendo con el niño éste lo interrumpe, detenga la lectura y preste atención a lo que surge. Piense que no todo lo que van leyendo está escrito en el libro. Las digresiones son propias de una lectura imaginativa. Atrévase a ir más allá de la letra o a volver desde lo escrito a la realidad: piense que la imaginación antecede a la escritura y también la desborda.
12. Piense que el acto de lectura es un modo de comunicación que trasciende lo que un texto dice o ilustra. Si la lectura hace ruido en la comunicación, déjela de lado. Sepa cuando es el momento adecuado para dejar de leer al niño.
13. Si realmente está dispuesto a leer con un niño, hágalo como le dé la gana: no siga ninguna instrucción al respecto. Manténgase en sus trece."

Ele falou tudo isso (e muito mais) numa mesa redonda da qual participou em maio deste ano.  Adorei o blog dele e recomendo a visita.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Frustração ou Felicidade?

Depois de muito enrolar, finalmente propus para o Pedro que lêssemos juntos um livro. Precisava comprovar aquilo que venho pregando – que a leitura compartilhada é muito gostosa e proveitosa. Que essa experiência é válida para qualquer idade e que ler junto estreita os laços.

Ler para e com a Luísa é bem fácil porque ela, apesar de já ter suas preferências literárias, aceita bem nossas recomendações e sugestões. Para ela, a experiência de ler junto ainda está mais ligada ao fato de estar em companhia de um de nós (pais, irmão ou avós) do que ao fato de estarmos compartilhando uma obra literária. Acho que por isso o que ela mais gosta é de fazer essa leitura compartilhada à noite, antes de dormir. Ela é meio medrosa, não gosta nada do escuro, por isso acho que esse momento traz tranquilidade e uma dose extra de segurança para “enfrentar” o momento de adormecer sozinha. O caso é que ela está, certamente, mais interessada na proximidade física do que na apreciação literária em si.

Já o Pedro quer a maior distância física possível de nós! Quer dizer, não é bem assim. Tem dia que ele acorda inspirado e sai distribuindo abraços apertados a torto e a direito. Nesses dias a gente aproveita ao máximo! Mas beijo, por exemplo, ele prefere mesmo é das namoradas. E esse negócio de chamego com pai e mãe está totalmente fora de questão. Ai, que saudade...

Bom, mas fato é que o Pedro é um cara muito bacana e quando expliquei que queria escrever sobre ele no blog ele aceitou que eu lesse um livro para ele. Só para me ajudar. Só para me dar assunto. Interessado na minha leitura ele não estava muito... mas topou mesmo assim. E para fazer a minha parte eu deixei que ele escolhesse o livro que queria. Lá volta ele com nada mais nada menos que as 670 páginas das Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, de Michael Chabon. Achei lindo porque ele escolheu um livro que eu já tinha recomendado para ele várias vezes e porque ele sabe que é um livro que eu adoro. Achei lindo mesmo... mas até suspirei quando vi. É que esse é um livro com uma linguagem super sofisticada, sentenças bem compridas, vocabulário rebuscado, daqueles beeeem difíceis de ler mesmo. Além disso, o Michael Chabon é mestre em lançar provocações, em costurar o enredo de um jeito que de vez em quando deixa a gente totalmente sem fôlego. Como é que o Pedro iria entrar nessa proposta se eu estivesse lendo para ele? Como é que eu saberia quando parar, onde pausar, para ele poder digerir o que tivesse que ser digerido?  Para ele refletir sobre o que tivesse vontade/necessidade?

Eu nunca tinha pensado em nada disso antes. Nunca tinha pensado que tem livro que simplesmente... não dá para ser lido em voz alta! Aliás, se alguém tivesse me dito isso antes daquela noite eu teria negado convictamente. Sempre tive prá mim que qualquer leitura poderia ser desfrutada a dois. E foi por isso que, apesar de meus temores, me pus a ler para o Pedro.

Já disse que meu filho é um cara muito bacana? Pois então. Ele ouviu minha leitura atentamente – até desligou a tela do computador! – durante três dias seguidos. Eu fiquei na maior ilusão, achei que íamos nos sentar juntinhos na cama dele, mas ele ficou na cadeira mesmo. Apesar disso, me ouviu com o maior cuidado e à cada capítulo me confirmava que estava gostando da história e que queria continuar.

Quem pulou do barco fui eu. Simplesmente fui deixando para depois, para mais tarde, para amanhã e assim os dias foram passando e agora já faz três semanas que não pegamos no livro.

Por que? Simplesmente porque percebi que não estávamos curtindo. Enquanto lia, o Pedro me escutava com a maior atenção, mas não sei se ele estava fazendo aquilo por ele ou por mim. E leitura assim não vale. Mesmo quando é compartilhada tem que ser curtida pelas duas (três, quatro, dez) partes – por todos envolvidos no processo! Por isso abortei o projeto.

Foi bastante frustrante reconhecer que minha investida não deu certo. Eu queria TANTO redescobrir o prazer de ler com o meu filho! Mas (ainda bem que o mas existe...) talvez eu tenha que reconhecer também que esse momento passou. Que temos personalidades leitoras diferentes. Que já somos leitores totalmente independentes?... Não sei. Preciso elaborar melhor isso.

O bom da história é pensar que o Pedro não precisa mais de mim para ler. Apesar da nossa tentativa não ter dado certo, ele lê muito e sempre. De presente, noutro dia, me pediu uma “assinatura” num site de áudio-livros. Recebe um crédito por mês e baixa os livros no computador. Daí pode gravar em cd, passar para o mp3, mp4, sei lá mais o quê. Então – quantos meninos de 15 anos PEDEM livros de presente hoje em dia?

Acho que o importante é isso aí mesmo. Reconhecer a felicidade, mesmo na frustração. Meu filho é um leitor e tanto e tenho certeza que eu contribuí muito para a sua formação leitora. E quem sabe? Talvez com um outro livro possamos retomar o projeto...