Penso que realmente não há como falar em leitura compartilhada sem falar em leitura individual, daquela que a gente se abandona dentro de um livro e some da face da terra. Ou mesmo da leitura que se faz sozinho, dia a dia, quando se lê um aviso, o jornal, uma placa ou um bilhetinho deixado pelo marido. A verdade é que ler é um ato absolutamente solitário. Compartilhar a leitura é fazer uma ponte, mostrar um caminho que um dia o outro vai trilhar sozinho. Porque no fundo, no fundo, o intuito é que cada um se enxergue leitor e perceba que aquilo pode ser feito só. Acho que já citei isso antes, mas repito aqui porque vale a pena ser repetido. A Heloísa Seixas diz que "ler é o encontro de duas solidões" - do leitor e do autor do texto (seja ele qual for). Hoje eu vinha no carro voltando de viagem e lendo tudo quanto era placa pendurada na beira da estrada. Enquanto lia pensava: alguém escreveu isso. Alguém pegou essa madeirinha, a tinta, o pincel e pintou "Paradão do Abacaxi" nessa placa. Viajei.
Mas nem é disso que eu quero falar. Hoje a Luísa acordou com uma baita dor de estômago. Ainda não conseguimos descobrir o que foi que aconteceu, mas ela acordou mesmo bem ruinzinha, com a cara amarela e muito infeliz. Não queria dar remédio nenhum porque não conseguia definir que dor era aquela por isso depois de tentar sem sucesso as soluções mais óbvias: mandar ir ao banheiro, fazer massagem na barriga e botar no colo, ela resolveu ir se deitar de novo.
Durante o café da manhã o Felipe e eu decidimos que deveríamos cancelar os planos de passeio para levá-la ao pronto-socorro, afinal a coisa parecia séria. Assim que terminei de comer fui dar uma espiadela para ver se ela tinha dormido de novo. Que nada. Cheguei bem quietinha na porta e só consegui ver a cabecinha levantada prá fora da coberta, a mocinha de bruços, apoiada nos cotovelos... lendo. Estava tão longe que nem ouviu da primeira vez que eu perguntei se tinha melhorado da dor de barriga. Da segunda vez ela me olhou e respondeu:
-Já melhorou... tá bem fraquinha, mas acho que daqui a pouco já vai passar.
Que coisa... Ela leu a dor prá longe. E continuou lendo até que a dor desapareceu.
É claro que essa historinha (real!) tem a ver com as leituras que ando fazendo. Parece que tudo aqui em casa sempre acontece a propósito dessas leituras. Sincronicidade? O livro do momento se chama "A Arte de Ler ou Como Resistir à Adversidade" escrito pela antropóloga francesa Michele Petit. Vou copiar aqui um pedacinho do texto da orelha do livro para explicar o trabalho fantástico que ela fez.
"... Partindo de experiências colhidas pessoalmente ou por meio do diálogo constante com leitores, meidadores de leitura, bibliotecários, professores, psicanalistas, escritores e animadores culturais de várias partes do mundo - mas sobretudo da América Latina - , Michèle Petit apresenta aqui diversas experiências de leitura compartilhada desenvolvidas em regiões afetadas por conflitos armados, desequilíbrio social, migrações populacionais forçadas ou acentuada deterioração das condições de vida."
Não canso de me surpreender com o poder da leitura, principalmente da leitura literária. Li em algum lugar (e agora não me lembro onde de jeito nenhum) que "o leitor é um caçador que percorre terras alheias." Nessas terras nos curamos, nos resolvemos, sobrevivemos. Em maior ou menor grau, na leitura nos refazemos. Primeiro acompanhados por alguém que nos empresta seus olhos, sua voz e seus saberes de leitor até que nós mesmos, sozinhos, somos capazes de espantar nossas dores prá bem longe. Só com um livro.
E viva o google: o autor da frase ali de cima é o sr. Michel de Certeau, de quem eu nunca tinha ouvido falar antes na vida. Agora vou ter que ler sobre ele na wikipedia.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Releituras
Sei bem que o leitor favorito da Luísa é o Felipe e já estou bem conformada com isso. Eu sinto só uma pontinha de ciúmes, mas fico bem feliz de saber que eles tem essa conexão tão especial. Só tenho oportunidade de ler com a Lulu mesmo quando o Felipe não está em casa na hora dela ir para a cama - por isso o livro do Pinóquio está durando tanto. Ah, sim, porque minha filha escolhe um livro diferente para cada leitor. Com o Felipe ela estava lendo Reinações de Narizinho, do Monteiro Lobato e comigo o Pinóquio, do Carlo Collodi. Cada qual com o seu livro, não vamos misturar as coisas!
No fim de semana vi os dois procurando um dos livros da série do Lobinho, do Ian Whybrow, com tradução do Carlos Sussekind. Daí perguntei porque eles iam ler aquele livro de novo se já tinham lido ele antes. Os dois me olharam com a cara mais desentendida do mundo e me explicaram, como se fosse óbvio, que já fazia muuuuuito tempo que tinham lido aqueles livros. Queriam ler de novo, oras.
Como é que eu pude ser tão obtusa? Eu mesma vivo justificando a existência de tantos livros em casa assim: não sei nunca quando vou ter vontade de reler este ou aquele título. Tenho que ter todos os meus favoritos à mão para qualquer emergência! A razão para a escolha da Luísa era realmente óbvia: as histórias do Lobinho são divertidíssimas! Dá prá ler muitas e muitas vezes e desfrutar sempre.
Quando eu estava dando aula eu amava os momentos em que me sentava no chão para ler para meus alunos. Pelo menos uma vez ao dia nos reuníamos para desfrutar juntos de uma história qualquer. Geralmente escolhia para ler para eles um livro em capítulos, que era para ficar mais emocionante! Mas o interessante era que entrava ano, saía ano e eu acabava lendo sempre os mesmos livros para as turmas. As aventuras da Pippi Meialonga, da Astrid Lindgren eram um grande sucesso, assim como os livros do Roald Dahl. As Histórias de Dragão da Ruth Stiles Gannett costumavam ser uma surpresa emocionante e era sempre o primeiro. Em tantos anos de sala de aula, nunca me cansei de ler e reler os mesmos livros.
Não foi Jorge Luis Borges quem disse que preferia reler do que ler?
Ontem à noite o Felipe não estava aqui para colocar a molecada na cama, mas eu não li para a Luísa. Quando entrei no quarto dei com ela absorta na leitura do livro do Lobinho (nem sei qual deles). Ela estava em pé, ao lado da cama, tão entretida que tinha se esquecido de se deitar. Em silêncio, puxei o edredon. Perguntei se ela não queria entrar na cama, ela deu uma risadinha, pulou para dentro dos lençóis, mas não me respondeu. Ficou ali, totalmente perdida na história até eu pedir para ela desligar o abajur e ir dormir.
Histórias do Lobinho (de Ian Whybrow)
Lobinho na Escola de Enganação
Diário das Façanhas de Lobinho
O Terror Domesticado
O Detetive da Floresta
Histórias da Pippi Meialonga (de Astrid Lindgren)
Pippi Meialonga
Pippi a Bordo
Pippi nos Mares do Sul
Histórias de Dragão (de Ruth Stiles Gannett)
O Dragão de Meu Pai
Aderbal e o Dragão
Os Dragões da Terra Azul
No fim de semana vi os dois procurando um dos livros da série do Lobinho, do Ian Whybrow, com tradução do Carlos Sussekind. Daí perguntei porque eles iam ler aquele livro de novo se já tinham lido ele antes. Os dois me olharam com a cara mais desentendida do mundo e me explicaram, como se fosse óbvio, que já fazia muuuuuito tempo que tinham lido aqueles livros. Queriam ler de novo, oras.
Como é que eu pude ser tão obtusa? Eu mesma vivo justificando a existência de tantos livros em casa assim: não sei nunca quando vou ter vontade de reler este ou aquele título. Tenho que ter todos os meus favoritos à mão para qualquer emergência! A razão para a escolha da Luísa era realmente óbvia: as histórias do Lobinho são divertidíssimas! Dá prá ler muitas e muitas vezes e desfrutar sempre.
Quando eu estava dando aula eu amava os momentos em que me sentava no chão para ler para meus alunos. Pelo menos uma vez ao dia nos reuníamos para desfrutar juntos de uma história qualquer. Geralmente escolhia para ler para eles um livro em capítulos, que era para ficar mais emocionante! Mas o interessante era que entrava ano, saía ano e eu acabava lendo sempre os mesmos livros para as turmas. As aventuras da Pippi Meialonga, da Astrid Lindgren eram um grande sucesso, assim como os livros do Roald Dahl. As Histórias de Dragão da Ruth Stiles Gannett costumavam ser uma surpresa emocionante e era sempre o primeiro. Em tantos anos de sala de aula, nunca me cansei de ler e reler os mesmos livros.Não foi Jorge Luis Borges quem disse que preferia reler do que ler?
Ontem à noite o Felipe não estava aqui para colocar a molecada na cama, mas eu não li para a Luísa. Quando entrei no quarto dei com ela absorta na leitura do livro do Lobinho (nem sei qual deles). Ela estava em pé, ao lado da cama, tão entretida que tinha se esquecido de se deitar. Em silêncio, puxei o edredon. Perguntei se ela não queria entrar na cama, ela deu uma risadinha, pulou para dentro dos lençóis, mas não me respondeu. Ficou ali, totalmente perdida na história até eu pedir para ela desligar o abajur e ir dormir.
Histórias do Lobinho (de Ian Whybrow)
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quinta-feira, 29 de julho de 2010
Pinóquio de Carlo Collodi
Há dias que a Luísa e eu estamos lendo juntas As Aventuras de Pinóquio escrito por Carlo Collodi e traduzido pela Marina Colasanti. Tem sido uma leitura incrível. Minha geração cresceu com a versão animada do Walt Disney e por muitos e muitos anos acreditei que “aquele”, o filme, é que fosse a história original. Quando descobri o livro não tive a menor curiosidade de lê-lo... Aliás, foi por ocasião do lançamento de outra versão para o cinema que eu me dei conta da existência do Sr. Collodi. Aluguei o filme Pinóquio para assistir com o Pedro, na época ainda pequenininho, e fiquei chocada com um Pinóquio tão arteiro e encrenqueiro. Lembro que foi por então que percebi, ou acordei para o fato, de que muitos de meus desenhos favoritos, lembranças maravilhosas de infância, eram na verdade, adaptações para o cinema de grandes clássicos da literatura.
É interessante essa história de ‘clássico’. O Ítalo Calvino diz que “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Enquanto leio o Pinóquio com a Luísa percebo o quanto isso é verdade. Rimos, sofremos e nos divertimos imensamente a cada capítulo por isso é tão difícil acreditar que esse livro tenha sido escrito em 1881 (a primeira edição é na verdade de 1883). As imagens da época abundam e a Luísa pára a cada quanto para perguntar coisas do tipo: “O que é uma taverna? O que é um purgante?” No entanto, a emoção da aventura, os sustos e os sobressaltos, tenho certeza de que são os mesmos que sentiam as crianças lá do século 19 enquanto liam os capítulos publicados num jornal italiano da época. Não canso de me surpreender com a “atualidade” das aventuras do boneco de madeira.
Enquanto a Luísa e eu desfrutamos de mais uma história juntas, me pergunto por que eu nunca li As Aventuras de Pinóquio para o Pedro. Ele teria gostado tanto! Mas àquela altura eu não sabia tudo o que sei hoje e nem conhecia o que conheço hoje sobre/da literatura infantil. Uma pena enorme... Pelo menos eu li outras coisas para ele e acho que consegui despertar no meu primogênito o amor pelos livros e a paixão pela leitura. Ele tem um gosto bem definido, preferências bem claras e agora está amadurecendo e começando a compartilhar leituras mais adultas comigo. Tem se aberto a diferentes sugestões de diferentes estilos literários dos que ele está acostumado a escolher para ler. Estou pensando aqui quais os clássicos que eu gostaria de ler com ele (ou pelo menos recomendar para ele). Tenho pânico da história das “leituras para vestibular” e do massacre que o ensino médio faz com a literatura... mas isso é assunto para outro dia.
Agora vou rever minhas prateleiras e procurar o que me falta ler. A lista é enorme, mas estou cheia de vontade e tenho ótima companhia. O próximo livro para compartilhar com a Lulu é o Peter Pan e Wendy, do J.M Barrie.
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quinta-feira, 8 de julho de 2010
Mãe, lê prá mim?
ebAcabei de assistir a um vídeo super bacana feito pelo Instituto Pró-Livro. Mostra depoimentos de várias pessoas que contam como começaram a ler. Muitas delas mencionam a família, as mães principalmente, e o contato que tiveram com os livros desde cedo. Parece uma coisa óbvia, mas não é. Com certeza, quem cresce com livros aprende a amar os livros. Mas estar perto deles não é o bastante... Quantos de nós lemos religiosamente com os nossos filhos? Com que frequência?
Não sei quando foi que eu comecei a ler diariamente (ou quase diariamente...) com o Pedro nem com a Luísa. Nem faz tanto tempo assim que eles eram pequenininhos, mas eu realmente não me lembro quando foi que comecei. Nem sei dizer se os dois tiveram a mesma experiência, se foram expostos aos livros do mesmo jeito, na mesma fase.
A primeira lembrança de leitura com o Pedro que eu tenho são dos livros para bebês, aqueles de cartão bem grosso e duro, que eu comprava nos clubes de livro da escola onde trabalhava em Brasília. Podíamos fazer pedidos a cada três meses e eu sempre queria comprar todos! Também tinha a feira do livro da escola que acontecia uma vez por ano. Lá os livros também saíam muito bem de preço por isso eu aproveitava. Além disso o Pedro adorava o evento, cheio de dança, música e contação de histórias.
Lembro que quando estava grávida da Luísa ganhei da minha amiga Ana Luiza um livro do Dr. Seuss, chamado Oh Baby, the Places You'll Go. Era uma adaptação de outro título bem conhecido dele, Oh, the Places You'll Go, para ser lido para a barriga! Amei a ideia de ler para a Luísa ainda não nascida, mas confesso que não me lembro de ter lido mais nada para ela enquanto estava grávida.
Há bem pouco tempo um amigo muito, muito querido teve seu primeiro neném e logo depois que a bebê chegou em casa eu perguntei:
-Já começou a ler prá ela?
-Ah, Sil, é muito cedo! Ela não vai entender nada!
Bem, lá isso é verdade. Acho que bebê não entende mesmo a trama, com todos os seus reveses, mas o bebê entende sim a entonação da voz, a emoção que a gente passa enquanto lê, o calor do aconchego do pai ou da mãe. Ou será que meu amigo acha que a filhinha dele entende o que ele diz? Os significados a gente vai construindo aos poucos, mas o sentimento do que se diz (ou do que se lê) está todo dentro do discurso e é devidamente entendido desde o princípio.
A Lucila Pastorello é uma fonoaudióloga de São Paulo que vem estudando a leitura em voz alta há bastante tempo. Ela escreveu um capítulo para o livro A Vida Que a Gente Quer Depende do Que a Gente Faz, (publicado pelo Instituto Ecofuturo) que fala justamente sobre a leitura para crianças pequenas. Aí vai o link para descobrir 7 Bons Motivos Para Ler Para as Crianças. (A Lucila escreve de um jeito tão lindo que vale mais a pena beber diretamente da fonte).
http://www.ecofuturo.org.br/comunicacao/publicacoes/porque_sim
No vídeo que assisti havia depoimentos de duas ou três mães que contavam ter lido para seus filhos enquanto eles ainda estavam na barriga. Tenho amigos que começaram a ler para os filhos desde o dia em que os pequenos nasceram. Euzinha não me lembro mesmo quando comecei, mas meus filhos não tiveram essa sorte. Nós já lemos muito juntos, já desfrutamos de muito livro bom! É muito legal, por exemplo, reler com a Luísa livros que eu já tinha lido com o Pedro e depois perceber que ele estava com uma orelha ligadona. Mas se eu pudesse voltar o tempo eu teria começado, como a mãe do vídeo, a ler para eles desde o dia que me descobri grávida.
O importante, no entanto, é começar. Seja quando for. Não é fácil, eu sei! Estou aqui nessa empreitada, tentando documentar essa experiência com toda honestidade e por isso afirmo que não é fácil. Mas é tão gostoso... A leitura tem poder transformador e não há herança melhor que se possa deixar para um filho que o amor pela leitura.
Só para terminar - aqui vai o link para quem quiser assistir o vídeo.
http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=1166
Um pedacinho do Oh Baby, the Places You'll Go:
"...the words I am saying you hear in your heart, and know that I wish you the very best start..."
Não sei quando foi que eu comecei a ler diariamente (ou quase diariamente...) com o Pedro nem com a Luísa. Nem faz tanto tempo assim que eles eram pequenininhos, mas eu realmente não me lembro quando foi que comecei. Nem sei dizer se os dois tiveram a mesma experiência, se foram expostos aos livros do mesmo jeito, na mesma fase.
A primeira lembrança de leitura com o Pedro que eu tenho são dos livros para bebês, aqueles de cartão bem grosso e duro, que eu comprava nos clubes de livro da escola onde trabalhava em Brasília. Podíamos fazer pedidos a cada três meses e eu sempre queria comprar todos! Também tinha a feira do livro da escola que acontecia uma vez por ano. Lá os livros também saíam muito bem de preço por isso eu aproveitava. Além disso o Pedro adorava o evento, cheio de dança, música e contação de histórias.
Lembro que quando estava grávida da Luísa ganhei da minha amiga Ana Luiza um livro do Dr. Seuss, chamado Oh Baby, the Places You'll Go. Era uma adaptação de outro título bem conhecido dele, Oh, the Places You'll Go, para ser lido para a barriga! Amei a ideia de ler para a Luísa ainda não nascida, mas confesso que não me lembro de ter lido mais nada para ela enquanto estava grávida.
Há bem pouco tempo um amigo muito, muito querido teve seu primeiro neném e logo depois que a bebê chegou em casa eu perguntei:
-Já começou a ler prá ela?
-Ah, Sil, é muito cedo! Ela não vai entender nada!
Bem, lá isso é verdade. Acho que bebê não entende mesmo a trama, com todos os seus reveses, mas o bebê entende sim a entonação da voz, a emoção que a gente passa enquanto lê, o calor do aconchego do pai ou da mãe. Ou será que meu amigo acha que a filhinha dele entende o que ele diz? Os significados a gente vai construindo aos poucos, mas o sentimento do que se diz (ou do que se lê) está todo dentro do discurso e é devidamente entendido desde o princípio.
A Lucila Pastorello é uma fonoaudióloga de São Paulo que vem estudando a leitura em voz alta há bastante tempo. Ela escreveu um capítulo para o livro A Vida Que a Gente Quer Depende do Que a Gente Faz, (publicado pelo Instituto Ecofuturo) que fala justamente sobre a leitura para crianças pequenas. Aí vai o link para descobrir 7 Bons Motivos Para Ler Para as Crianças. (A Lucila escreve de um jeito tão lindo que vale mais a pena beber diretamente da fonte).
http://www.ecofuturo.org.br/comunicacao/publicacoes/porque_sim
No vídeo que assisti havia depoimentos de duas ou três mães que contavam ter lido para seus filhos enquanto eles ainda estavam na barriga. Tenho amigos que começaram a ler para os filhos desde o dia em que os pequenos nasceram. Euzinha não me lembro mesmo quando comecei, mas meus filhos não tiveram essa sorte. Nós já lemos muito juntos, já desfrutamos de muito livro bom! É muito legal, por exemplo, reler com a Luísa livros que eu já tinha lido com o Pedro e depois perceber que ele estava com uma orelha ligadona. Mas se eu pudesse voltar o tempo eu teria começado, como a mãe do vídeo, a ler para eles desde o dia que me descobri grávida.
O importante, no entanto, é começar. Seja quando for. Não é fácil, eu sei! Estou aqui nessa empreitada, tentando documentar essa experiência com toda honestidade e por isso afirmo que não é fácil. Mas é tão gostoso... A leitura tem poder transformador e não há herança melhor que se possa deixar para um filho que o amor pela leitura.
Só para terminar - aqui vai o link para quem quiser assistir o vídeo.
http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=1166
Um pedacinho do Oh Baby, the Places You'll Go:
"...the words I am saying you hear in your heart, and know that I wish you the very best start..."
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Só na vontade
Estou louca de vontade de ler o Pinóquio do Collodi que compramos na semana passada, mas minha filha nem tchum. Só quer saber da Turma da Mônica Jovem. Fiz a proposta para o Pedro, mas ele se limitou a arquear uma sombrancelha. Não vai dar para mais para esperar! Vou ler sozinha mesmo.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Surrupiando um momento
Em meio a milhares de caixas de mudança, um monte de pó e várias listas de tarefas é difícil conseguir desacelerar o bastante para compartilhar um momento gostoso de leitura. Por isso nesses últimos dias cada qual aqui em casa fez a sua, sozinho, deitado na cama antes de dormir. Apesar de não compartilharmos leituras temos pelo menos conversado sobre leituras o que também é uma delícia se fazer. E por mais que a gente se conheça e conheça os gostos um do outro, sempre aparece alguma novidade, alguma surpresa nessas conversas.
Outro dia o Pedro e eu tivemos um papo super bacana sobre novelas gráficas. Eu estava perguntando qual era a opinião dele a respeito de um projeto que eu estava escrevendo. O projeto tinha a ver com a formação de leitores e eu queria saber o que o Pedro achava das iniciativas que eu estava propondo para "provocar" jovens não-leitores.
Eu dizia que era uma pena a maneira como alguns professores dão aula de literatura e tornam uma coisa tão fascinante em tarefa maçante e tediosa. Não, não quero generalizar, mas isso ainda acontece SIM. E se os adolescentes não desenvolveram antes o interesse pela leitura, não é fazendo questionários intermináveis ou análises incansáveis sobre um livro que alguém vai conseguir despertar esse interesse. Acredito piamente que temos que aproximar livros e leitores. Já não me lembro onde eu li isso, mas "existe um livro para cada leitor." Quanto mais alternativas oferecermos, mais chance haverá do leitor encontrar-se com o "seu" livro.
Perguntei para o Pedro o que ele achava de participar de um grupo de leitura de novelas gráficas. Poucos dias antes dessa nossa conversa eu tinha lido dois livros maravilhosos que o Pedro também gostou bastante. Duas novelas gráficas. A primeira é uma linda autobiografia chamada Retalhos do cartunista Craig Thompson. A segunda me lembrou o excelente Maus, de Art Spiegelman, pelo tema do holocausto. Chama-se A Busca e foi publicada pela Cia. das Letras. Os autores são Eric Heuvel, Ruud van der Rol e Lies Schippers. Os dois títulos são realmente muito bons - eu adoraria trabalhar com qualquer um deles dentro da sala de aula. O Pedro achou a ideia interessante e disse que ele toparia participar de um grupo de leitura como o que eu estava propondo. Mas eu percebi que enquanto falávamos sobre isso a cabeça dele já ia pensando noutras coisas...
Gostei muito mesmo dessas duas leituras e comecei a trazer para a conversa várias outras que já curtimos juntos (ou não) aqui por casa. Lembrei do maravilhoso Persépolis da Marjanne Satrapi - uma aula sobre o Irã - que foi lido num tapa, quase que no mesmo dia, pelo Pedro, pelo Gabriel, meu sobrinho, e por mim. Persépolis é daqueles livros ilargáveis, não dá para parar de ler antes de terminar. Lembrei também do D. João Carioca, da historiadora Lilia Moritz Schwarcz e do cartunista Spacca, que uma professora do Pedro recomendou há uns dois anos e que todos nós em casa adoramos. Fiquei pensando o quanto essas leituras foram ricas o quanto eu gostei delas. Acho que às vezes a gente esquece de explorar linguagens diferentes e estilos diferentes de literatura. É uma pena porque quem acaba saindo perdendo é a gente mesmo.
Bom, mas o mais gostoso da história foi a aula que o Pedro me deu sobre novelas gráficas. Eu tinha mesmo percebido que ele estava falando comigo sobre o grupo de leitura, mas pensando em outra coisa bem diferente. Assim que eu dei uma brecha ele começou a me dar explicações... Fico sempre maravilhada com os saberes do meu filho. Eu sei que ele sabe muito sobre muitas coisas, mas é sempre uma surpresa quando ele desata a falar com tanto conhecimento de causa e tanta propriedade. Ele ficou um tempão me contando sobre os quadrinhos favoritos dele: V de Vingança e Neuromancer. Nem acho que esses dois tem muito a ver comigo, mas foi ótimo "trocar de lugar" com o Pedro. Geralmente sou eu que fico explicando as coisas prá ele na hora do jantar (talvez por pura metidez e tagarelice). Mas ultimamente as trocas tem sido mais regulares e essa conversa, especificamente, foi realmente um momento de aprendizagem para mim.
Mais um livro lindo-maravilhoso que vale à pena ser lido em qualquer idade: A Invenção de Hugo Cabret, do Brian Selznick. Imperdível! E ainda não li, mas descobri outro dia que existe uma versão em quadrinhos para Em Busca do Tempo Perdido. Proust em quadrinhos é demais! Mais um para a minha lista...
Outro dia o Pedro e eu tivemos um papo super bacana sobre novelas gráficas. Eu estava perguntando qual era a opinião dele a respeito de um projeto que eu estava escrevendo. O projeto tinha a ver com a formação de leitores e eu queria saber o que o Pedro achava das iniciativas que eu estava propondo para "provocar" jovens não-leitores.
Eu dizia que era uma pena a maneira como alguns professores dão aula de literatura e tornam uma coisa tão fascinante em tarefa maçante e tediosa. Não, não quero generalizar, mas isso ainda acontece SIM. E se os adolescentes não desenvolveram antes o interesse pela leitura, não é fazendo questionários intermináveis ou análises incansáveis sobre um livro que alguém vai conseguir despertar esse interesse. Acredito piamente que temos que aproximar livros e leitores. Já não me lembro onde eu li isso, mas "existe um livro para cada leitor." Quanto mais alternativas oferecermos, mais chance haverá do leitor encontrar-se com o "seu" livro.
Perguntei para o Pedro o que ele achava de participar de um grupo de leitura de novelas gráficas. Poucos dias antes dessa nossa conversa eu tinha lido dois livros maravilhosos que o Pedro também gostou bastante. Duas novelas gráficas. A primeira é uma linda autobiografia chamada Retalhos do cartunista Craig Thompson. A segunda me lembrou o excelente Maus, de Art Spiegelman, pelo tema do holocausto. Chama-se A Busca e foi publicada pela Cia. das Letras. Os autores são Eric Heuvel, Ruud van der Rol e Lies Schippers. Os dois títulos são realmente muito bons - eu adoraria trabalhar com qualquer um deles dentro da sala de aula. O Pedro achou a ideia interessante e disse que ele toparia participar de um grupo de leitura como o que eu estava propondo. Mas eu percebi que enquanto falávamos sobre isso a cabeça dele já ia pensando noutras coisas...
Gostei muito mesmo dessas duas leituras e comecei a trazer para a conversa várias outras que já curtimos juntos (ou não) aqui por casa. Lembrei do maravilhoso Persépolis da Marjanne Satrapi - uma aula sobre o Irã - que foi lido num tapa, quase que no mesmo dia, pelo Pedro, pelo Gabriel, meu sobrinho, e por mim. Persépolis é daqueles livros ilargáveis, não dá para parar de ler antes de terminar. Lembrei também do D. João Carioca, da historiadora Lilia Moritz Schwarcz e do cartunista Spacca, que uma professora do Pedro recomendou há uns dois anos e que todos nós em casa adoramos. Fiquei pensando o quanto essas leituras foram ricas o quanto eu gostei delas. Acho que às vezes a gente esquece de explorar linguagens diferentes e estilos diferentes de literatura. É uma pena porque quem acaba saindo perdendo é a gente mesmo.
Bom, mas o mais gostoso da história foi a aula que o Pedro me deu sobre novelas gráficas. Eu tinha mesmo percebido que ele estava falando comigo sobre o grupo de leitura, mas pensando em outra coisa bem diferente. Assim que eu dei uma brecha ele começou a me dar explicações... Fico sempre maravilhada com os saberes do meu filho. Eu sei que ele sabe muito sobre muitas coisas, mas é sempre uma surpresa quando ele desata a falar com tanto conhecimento de causa e tanta propriedade. Ele ficou um tempão me contando sobre os quadrinhos favoritos dele: V de Vingança e Neuromancer. Nem acho que esses dois tem muito a ver comigo, mas foi ótimo "trocar de lugar" com o Pedro. Geralmente sou eu que fico explicando as coisas prá ele na hora do jantar (talvez por pura metidez e tagarelice). Mas ultimamente as trocas tem sido mais regulares e essa conversa, especificamente, foi realmente um momento de aprendizagem para mim. Meu filho está mesmo virando gente grande. Nem vou começar a falar sobre isso porque afinal de contas não é disso que esse blog trata. Mas é delicioso perceber que os livros nos aproximam. Não que nós não tenhamos os nossos momentos de conflito - ele tem quinze anos e eu sou a mãe dele... Mas ainda bem que temos esses gostos parecidos que servem para reconciliar e estreitar os laços. Quer coisa melhor?
Mais um livro lindo-maravilhoso que vale à pena ser lido em qualquer idade: A Invenção de Hugo Cabret, do Brian Selznick. Imperdível! E ainda não li, mas descobri outro dia que existe uma versão em quadrinhos para Em Busca do Tempo Perdido. Proust em quadrinhos é demais! Mais um para a minha lista...sexta-feira, 21 de maio de 2010
A avó que curte mangá
Ontem à noite estava conversando com uma grande, enorme!, amiga que está morando no Japão e ela me contou uma coisa linda que tenho que escrever aqui. A mãe da Paula é filha de japoneses imigrantes, nasceu no Brasil e quando era jovem falava bem, lia e escrevia o japonês. Mas com o passar dos anos perdeu o contato frequente com a língua nativa dos pais. Há dois meses a Paula se mudou para Osaka e resolveu procurar para a sobrinha, fã número 1 de mangás, algumas revistas em japonês. Tudo para incentivar a sobrinha querida a continuar seus estudos de japonês. O pacote com vários mangás chegou em São Paulo na semana passada e a sobrinha pirou! Ficou tão feliz com o presente que carregou os mangás prá casa da avó, pro almoço de domingo. A avó se comoveu com o interesse da neta pelas revistas. Sentou-se ao lado dela para que pudessem ler, juntas, os mangás em japonês.
Mais tarde essa avó maravilhosa contou para a filha, minha amiga, que ficou muito feliz de ter tido aquele momento com a neta. Não deve ser tarefa fácil ser avó de uma adolescente - acho que fica difícil achar interesses em comum quando a garotada está com 14, 15 anos. Quem diria que um mangá proporcionaria esse tipo de aproximação entre avó e neta? A mãe da Paula disse que ficou feliz também com o fato dela ter conseguido se lembrar tão bem da língua dos pais. Foi mesmo um momento de leitura mágico que juntou pelo menos quatro gerações dessa família: os bisavós japoneses, a avó leitora, a tia que mandou os mangás lá do outro lado do planeta e a bis/neta-sobrinha.
Mas a história não pára por aí. Naquela tarde de domingo tinha um jogão no Morumbi e a família toda da Paula, alucinada pelo São Paulo que é, foi prestigiar o time no estádio. A sobrinha não teve dúvida - levou o mangá junto. Pro jogo de futebol no Morumbi. Só quem conhece essa família e sabe o nível de 'comprometimento' deles com o futebol entende o que isso significou...
Em tempo: esqueci de perguntar para a minha amiga o que a mãe dela achou do mangá. Da próxima.
Mais tarde essa avó maravilhosa contou para a filha, minha amiga, que ficou muito feliz de ter tido aquele momento com a neta. Não deve ser tarefa fácil ser avó de uma adolescente - acho que fica difícil achar interesses em comum quando a garotada está com 14, 15 anos. Quem diria que um mangá proporcionaria esse tipo de aproximação entre avó e neta? A mãe da Paula disse que ficou feliz também com o fato dela ter conseguido se lembrar tão bem da língua dos pais. Foi mesmo um momento de leitura mágico que juntou pelo menos quatro gerações dessa família: os bisavós japoneses, a avó leitora, a tia que mandou os mangás lá do outro lado do planeta e a bis/neta-sobrinha.
Mas a história não pára por aí. Naquela tarde de domingo tinha um jogão no Morumbi e a família toda da Paula, alucinada pelo São Paulo que é, foi prestigiar o time no estádio. A sobrinha não teve dúvida - levou o mangá junto. Pro jogo de futebol no Morumbi. Só quem conhece essa família e sabe o nível de 'comprometimento' deles com o futebol entende o que isso significou...
Em tempo: esqueci de perguntar para a minha amiga o que a mãe dela achou do mangá. Da próxima.
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